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  • Felipe Cavalcante

Uma defesa dos introvertidos

Sempre quis falar a respeito disso. O mundo atual valoriza e recompensa os extrovertidos. Os introvertidos estão fora de moda e muitas vezes são tratados como se tivessem uma doença que precisa ser curada.


Como um bom introvertido, fico triste de ver isso tudo acontecendo. Imagino a quantidade imensa de talentos que não conseguem alcançar seu potencial devido à forma que o mundo os trata.


Muita gente acha que eu mesmo não sou introvertido, já que sou simpático, consigo conversar e me relacionar bem com as pessoas, faço piadas e dou palestras com naturalidade. Mas eu sou sim muito introvertido. Eventualmente eu encontro algum colega da escola e já vi alguns deles falarem que eu era a última pessoa do mundo que eles imaginariam que assumiria uma posição de liderança e que teria tanta desenvoltura ao falar em público. Sempre fui caladão e tímido, o típico magro, alto e introspectivo.


Uma diferença importante do meu caso para os dos jovens de hoje é que eu convivi muito com outras crianças e adolescentes. A minha vida era fora de casa, seja na Barra de São Miguel, seja em Maceió. Estávamos sempre na rua com um grupo de amigos e era comum sairmos de casa de manhã e voltarmos de noite. Era um mundo sem violência, games, internet e ruas pavimentadas e só o que restava era sair de casa para brincar com os amigos. Claro que isso vai dando um traquejo social mesmo para aqueles que não o possuem naturalmente.


Mas apesar de ser introvertido e de ter tido a possibilidade de conviver bastante com outros jovens, eu também sempre tive um senso de autoconhecimento muito elevado. Desde a adolescência eu sabia que precisaria mudar para aumentar as minhas chances de sucesso na vida.


Essa consciência ficou mais aguda no primeiro ano do ensino médio, quando realmente tomei a decisão de me tornar mais extrovertido. Mas seu ápice foi quando entrei na faculdade em Recife. Na primeira reunião da Associação Atlética eu me ofereci para fazer os anúncios nas salas de aula. Meu corpo suava e tremia todo, mas eu sabia que precisava fazer algo a respeito. Eu já compreendia que falar em público era importante e que poderia ser uma barreira em minha vida profissional. Claro que nas primeiras vezes meus anúncios nas salas de aula foram uma tragédia e motivo de gozação de todo mundo, mas com o passar do tempo eu fui melhorando e ficando mais calmo, até passar a ser algo totalmente natural e que não me trazia ansiedade.


Uma das principais armas que sempre utilizei para superar a timidez foram as piadas e brincadeiras. As que fazia comigo mesmo eram sempre autodepreciativas. Já as que fazia com os outros sempre tinham uma predileção pela ironia. Quando estou inspirado, eu fico o tempo todo durante uma conversa aguardando a oportunidade de pegar uma deixa no ar para fazer uma piada. Tudo isso foi me levando a ser quem eu sou hoje, um introvertido com habilidades de interação social.


O fato que poucas pessoas se dão conta é que não existe o introvertido ou extrovertido puro. É certo que as pessoas nascem com uma predisposição genética em direção a um dos dois estados, mas com o passar dos anos todo mundo recebe uma série de inputs que vão nos moldando e transformando.


Essa mistura de genética com o ambiente e experiências vividas fazem com que não sejamos 100% introvertidos ou extrovertidos. Entre o preto e o branco, somos todos cinzas nesse aspecto. O nome científico disso é Ambivertido, ou seja, alguém que apresenta características dos introvertidos e extrovertidos a depender da situação, humor ou seus objetivos. Outra definição desse tipo de pessoa é “Introvertido extrovertido”.


Quando aprendi isso há uns atrás tudo se encaixou perfeitamente em minha cabeça e me identifiquei imediatamente. Eu sou um atualmente um ambivertido, apesar de ter nascido como introvertido.


A mesma coisa posso dizer da minha esposa, uma pessoa extremamente simpática e sociável, mas que é uma introvertida natural. Nós raramente saímos de casa, não vamos a eventos sociais e temos um círculo de amigos próximos muito pequeno, apesar de conhecermos e nos darmos bem com muitas pessoas.


Como não podia deixar de ser, com todo esse background, o meu filho também é introvertido, como a diferença que nele a introversão ainda predomina, pois ainda está começando a sua jornada pela vida e recebendo os inputs que o levarão mais ao centro do espetro introversão-extroversão.


Com três pessoas caseiras, nossos meses de quarentena durante a pandemia transcorreram como se fossem dias normais. Estamos acostumados a ficar em casa e para nós, nós nos bastamos. Somos muito família. Achávamos engraçados ver uma série de famílias passando por dificuldades de relacionamento por estar tendo que conviver por tanto tempo juntas. Esse problema nós não temos.


Falando em filho, duas coisas me veem à cabeça. A primeira foi a pressão que algumas pessoas próximas faziam para que o obrigássemos a ser mais extrovertidos. É como se esse fosse o padrão correto e que deveríamos “consertá-lo” enquanto era tempo. Eu e minha esposa nunca concordamos com isso. Ela é defensora de que cada pessoa é de um jeito e que isso precisa ser respeitado. Ela também sempre afirma que tudo acontece a seu devido tempo e que não adianta pressionar.


Pelo meu lado, eu concordo, mas me preocupo com os excessos. Nada em excesso é bom e eu sei da importância da pessoa saber se comunicar e se relacionar para ter sucesso na vida. Entendo que será natural a aprendizagem, mas que se eu puder ajudar eu irei fazer, ainda que sempre respeitando os seus limites.


Outra coisa que aprendi com a minha esposa é que muito da timidez vem do medo. Do medo de falar em público, de ser julgado, de ser criticado, etc. E isso se cura através da exposição ao objeto do medo. Essa exposição pode gerar um reforço positivo ou negativo. Se um introvertido que tem medo de fazer uma pergunta na sala de aula levanta o dedo e consegue fazer a pergunta, mesmo que com a voz entrecortada, e tudo corre bem, ele terá mais segurança para fazer isso novamente e assim pode diante, até perder o medo e a coisa passar a ser natural para ele. Esse é um tipo de reforço positivo.


Se por outro lado, a pessoa gaguejar e os colegas começarem a rir, ou se fizer a pergunta e o professor responder com ironia, aí teremos o reforço negativo atuando e dificilmente essa pessoa conseguirá superar esse receio.


Uma coisa que é fundamental nessa discussão é entendermos que introspecção é diferente de timidez. Apesar de serem parentes próximas, são coisas distintas, como explica Susan Cain em seu clássico “O poder dos quietos”. Segunda ela, nem todo introvertido é tímido, pois a timidez é o medo da desaprovação ou humilhação social enquanto a introversão é a preferência por ambientes que não sejam superestimulantes. Muitas vezes a timidez é dolorosa, enquanto a introversão não necessariamente.


Além de diferenciar a introversão da timidez, também é importante explicar a diferença principal entre introversão e extroversão. O principal fator que as diferencia é que enquanto os introvertidos recarregam suas baterias estando sozinho, os extrovertidos as recarregam em ambientes sociais, estimulantes, repleto de outras pessoas.


Uma outra característica atual da nossa sociedade que prejudica os introvertidos é a obsessão em trabalhar em grupos. Seja no trabalho, seja na escola isso virou um mantra. Recentemente estive analisando algumas escolas e faculdades para o meu filho e em quase todas as entrevistas que fizemos surgiu o mesmo padrão, onde as escolas valorizam fortemente o trabalho em grupo. Eu sempre questionava isso perguntando se isso não era uma imposição cultural que privilegiava os extrovertidos em detrimento dos introvertidos e em todas as escolas as diretoras concordaram comigo meio descabreadas.


Em algumas faculdades de São Paulo a coisa está ainda pior, com elas incluindo em seus processos seletivos a avaliação da capacidade de trabalhar em grupo e de se comunicar bem como fatores determinantes para aceitação.


Claro que são fatores importantes para se ter sucesso na vida, mas ao tornar obrigatório esse critério essas escolas e faculdades estão claramente privilegiando um grupo de pessoas que melhor se adequam a elas. Eu fico me perguntando se realmente são esses fatores que medem o sucesso de uma pessoa.


Vejam um caso muito atual, o dos programadores de sistemas. Poucas profissões estão mais na moda e demandadas de que essa. Essa é uma profissão que claramente beneficia mais os introvertidos, que precisam passar horas focados em escrever códigos e com pouquíssima interação social.


Outro setor da moda que é benéfico aos introvertidos é o dos investimentos financeiros, onde a capacidade de concentração e análise de dados é crucial. Tomar grandes riscos, característica típica dos extrovertidos, pode ser o caminho para grandes perdas. A disciplina é muito valorizada nesse mundo.


Por mais que trabalhar em equipe seja importante, também tem seus pontos negativos, como a menor concentração, o fato de sempre alguém carregar o piano enquanto outros não fazem nada, além do medo da maioria das pessoas de falar em público e dizer alguma bobagem e ser julgada ou criticada pelos pares e do fato de o processo decisivo sempre demorar.


Nem mesmo existe a garantia de que uma decisão tomada em grupo seja melhor, pois muitas vezes não existe segurança psicológica para as pessoas se expressarem livremente. Tem uma declaração do fundador da Apple, Steve Wozniak que espelha bem isso: “Não acredito que algo realmente revolucionário tenha sido inventado por um comitê ... Vou lhe dar um conselho que pode ser difícil de seguir. Esse conselho é: trabalhe sozinho... Não em um comitê. Não em uma equipe”.


A conclusão, pelo menos para mim, é meio óbvia. Existem situações em que o trabalho em grupo é o melhor caminho, mas existem muitas outras onde o trabalho solitário se faz necessário. Por isso que não entendo porque existe essa ditadura do trabalho em grupo como panaceia para todos os males.


Teve uma passagem que aconteceu comigo que espelha bem toda essa questão da dificuldade dos introvertidos no mercado de trabalho. Uma vez eu estava fazendo uma seleção para designer na minha empresa. Recebi vários currículos com portfólios e marquei entrevistas com os finalistas. Na entrevista com o designer cujos trabalhos mais tinham me impressionado, ele mal conseguia se pronunciar A dificuldade dele falar era impressionante. Automaticamente eu falei para mim mesmo que não teria como contratá-lo. Foi aí que caiu a ficha de que eu não estava contratando alguém para falar em público, mas para fazer design de qualidade. Foi quando eu resolvi contrata-lo pelo seu portfólio e não pela sua habilidade de falar em público. Foi uma das melhores decisões que já tomei.


Um ponto é a percepção no mundo das startups de que muitas vezes os investidores investem em quem fala melhor, conta as melhores estórias e conseguem capturar a imaginação das pessoas através de técnicas de storytelling e de visões cheias de propósitos. São os famosos apresentadores de powerpoint. Uma pessoa com um conteúdo melhor quase certamente não vai consegui obter o mesmo resultado que alguém que seja desenrolado e bom de lábia.


Além disso, ser extrovertido não é e nem nunca foi sinônimo de sucesso. Ao contrário, ser extrovertido muitas vezes leva mais a problemas de que a sucessos. Os extrovertidos têm mais chances de cometer adultérios e se divorciar, de sofrer acidentes e se machucar, de se drogar, beber e cometer crimes. Por ter um senso de autopreservação menor, os extrovertidos tendem consequentemente a viver menos do que os introvertidos.


Por outro lado, são incontáveis os casos de pessoas introvertidas bem-sucedidas profissionalmente. Jim Collins, o guru da gestão, realizou um estudo sobre liderança onde identificou que os melhores líderes são aqueles que possuem humildade, trabalham duro focados nos interesses da empresa e não na sua agenda pessoal e que não gostam de aparecer. Os melhores líderes não são aqueles que mais aparecem na mídia, verdadeiras forças da natureza, magnéticas, comunicativas e expansivas. Eles obviamente aparecem muito mais, mas são os líderes quietos que mais entregam resultados e são admirados pelas suas equipes.


Ao ler o já mencionado livro “O poder dos quietos” de Susan Cain, eu relacionei várias outras qualidades das pessoas introvertidas, como seriedade, disciplina, poder de concentração, maior tendência a ser cerebral e refletir com profundidade em relação aos assuntos, tom de voz e atitudes mais calmas e menos agressivas, pensar antes de falar, melhor ouvinte, escutar mais do que falar, se expressar melhor escrevendo do que falando, evitar conflitos, ser mais sensíveis, mais cuidadosos e mais inclinados a ouvir opiniões de terceiros e aceitá-las. Eles também se sentem mais facilmente culpados quando fazem algo errado, detectam melhor problemas e ameaças, se preparam mais para as situações, além de cometerem menos erros.

Para mim é muito claro que as maiores invenções, descobertas científicas e obras de arte já criadas pela humanidade são produtos de introvertidos, pessoas que vivem dentro de suas mentes. A introversão favorece a reflexão, o foco e o pensamento profundo.


Já em termos de inteligência e afabilidade os extrovertidos e introvertidos não possuem maiores diferenças. Ambas as características são encontradas igualmente distribuídas entre os dois grupos.


Uma diferença que existe entre eles é que enquanto os extrovertidos alcançam maior liderança em situações que exigem interações sociais, os introvertidos, por sua vez, são líderes em campos teóricos e estéticos. Se os extrovertidos têm desempenho melhor em esportes e teatro, os introvertidos alcançam mais sucesso quando falamos de matemática ou música, que exigem mais paciência e concentração.


Já em termos de educação, enquanto os extrovertidos se saem melhor nos primeiros anos da escola, os introvertidos se destacam no ensino médio e na universidade.

Uma outra característica marcante dos introvertidos é que eles detestam papo-furado e superficial, o famoso chit-chat. Introvertidos gostam de conversas mais aprofundadas. Por isso que eles têm tanta dificuldade em festas e ambientes onde precisam se relacionar com quem não conhecem. Por definição, conversas mais profundas acontecem com pessoas com quem já temos um relacionamento anterior ou com pessoas que possuem o mesmo interesse que nós.


Sob a ótica da evolução das espécies é claro que ser introvertido tem alguma utilidade senão eles não mais existiriam nos dias atuais. Se o extrovertido tem mais propensão a se reproduzir, os introvertidos com sua maior precaução tendem a ser arriscar menos e consequentemente sofrer menos acidentes e mortes.


Como podemos ver cada traço de personalidade tem suas vantagens e desvantagens e nenhum deles é o melhor do que o outro em termos absolutos. É necessário que cada pessoa entenda qual é o seu traço principal e não nade contra a maré, ou seja, não é o melhor caminho a ser seguido por um introvertido se dedicar a uma atividade que favorece o extrovertido e vice-versa. Devemos nos dedicar aquilo que somos bons e temos vantagens competitivas.

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