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  • Felipe Cavalcante

Um passo-a-passo sobre como construir cidades para pessoas

Muitas pessoas preferem viajar para cidades a viajar para praias paradisíacas. O nome disso é turismo urbano.


Gostamos de fazer isso para ter uma experiência urbana diferente de nossas rotinas e poder simplesmente bater perna e passear pelas cidades.


O interessante disso é que pessoas que nunca andam a pé em suas cidades viajam e pagam caro para andar a pé em outras cidades.


Quem não sonha em sentar-se em uma mesa na calçada de um café parisiense e ficar olhando o movimento da cidade?


Quem não gostaria de ir pra Barcelona e ficar andando de bar em bar para comer as suas famosas tapas.


Todo mundo tem curiosidade de conhecer Nova York, passear pela Quinta Avenida e pela Times Square e conferir de perto a sua vibração.


E qual mulher não deseja passear pela Champ Elysees, olhar vitrines das marcas famosas e, claro, fazer umas comprinhas.


E se perder nas ruas românticas de Veneza na sua lua de mel? Vai dizer que você não gostaria?


Se todo mundo gosta desse tipo de cidade, porque não construímos nossas cidades dessa maneira, amigáveis aos pedestres?


Afinal de contas, o desenho das cidades pode ser replicado em qualquer lugar.

Seria possível construir em qualquer lugar ruas com as mesmas dimensões e características de Paris, por exemplo.


Então, por que não fazemos isso no Brasil? Por que não construímos ruas bonitas e que priorizem os pedestres aqui?


A culpa é da nossa legislação urbanística que prioriza cidades voltadas para os automóveis e o chamado “Urbanismo modernista”


O “urbanismo modernista” defendia o fim da tradição construtiva e se opunha às cidades belas.


Ele defendia que os usos e funções da cidade deveriam ser separados, ou seja, as pessoas morariam em um bairro, estudariam em outro, trabalhariam em um terceiro lugar e se divertiriam em um lugar diferente desses três.


Isso acabou com o chamado Uso misto, onde moradia, estudo, trabalho e lazer podem ser encontrados em um só lugar e tudo pode ser feito a pé.


Outro ponto central do Modernismo foi a prioridade para os automóveis. A cidade deveria ser planejada e construída para dar conforto aos automóveis, com o objetivo de reduzir ao máximo o tempo de deslocamento dos automóveis dentro da cidade. As pessoas foram tiradas de cena e perderam as cidades para os carros.


Uma das consequências da separação de usos e da prioridade aos automóveis foi que ninguém conseguia mais fazer as coisas a pé. Para tudo era necessário o uso dos carros.

Outro ponto negativo do Modernismo foi a defesa dos arranha-céu e do modelo “Torre no parque”, onde os prédios deveriam ser altos e construídos no centro dos terrenos e cercados de áreas verdes.


Apesar da boa intenção de melhorar a ventilação e insolação dos apartamentos, esse modelo terminou de destruir as cidades para pessoas.


Com a aplicação de grandes recuos da calçada e dos prédios vizinhos, os edifícios passaram a se localizar no centro dos lotes. Com isso, as fachadas ativas deixaram de existir. Fachadas ativas são aquelas lojas, bares e restaurantes que ficam localizados nos térreos dos edifícios e que tornam nossas cidades mais agradáveis, vibrantes e seguras.


O criador do Modernismo foi Le Corbusier e infelizmente ele foi a pessoa que mais influenciou a arquitetura e urbanismo no Século 20.


Se você quiser encontrar um culpado pela maneira como nossas cidades estão hoje, ele é o maior candidato a vilão.


Mas você pode estar se perguntando: e o que é necessário para virar a página do modernismo e voltar a construir cidades bonitas, vibrantes e voltadas para as pessoas?

Bem, não é tão difícil assim, afinal de contas as características de uma cidade assim são bem conhecidas pelos urbanistas.


O maior problema é mesmo conscientizar as Prefeituras e Câmaras de Vereadores de nossas cidades para mudar nossos Planos Diretores e adotar esses princípios.


Para dar uma forcinha nisso, vamos resumir aqui o que uma cidade deve ter para voltar a ser agradável e priorizar as pessoas. Para facilitar ainda mais, inclui imagens para deixar claro do que estou falando.


Espaços públicos amigáveis aos pedestres e ciclistas




Construir calçadas largas, seguras e confortáveis




Criar espaços público com senso de enclausuramento. Isso quer dizer que a relação entre a largura das ruas e a altura dos prédios deve criar um ambiente agradável e aconchegante para as pessoas. Proporções inadequadas deixam as pessoas expostas e desconfortáveis. O senso de enclausuramento se baseia na necessidade humana de perspectiva e refúgio.




Áreas verdes nas praças e parques e não dentro dos lotes


Se preocupar mais com a interface entre o espaço público e os andares baixos dos prédios e menos com as suas alturas




Adensar as áreas centrais e dotadas de infraestrutura, usando o adensamento gentil e amigável ao pedestre.




Acabar com a obrigação de recuos laterais e frontais em zonas adensadas




Investir em transporte público de qualidade




Investir em infraestrutura para bicicletas e mobilidade ativa




Priorizar o uso misto das edificações




Implantar ruas compartilhadas




Implantar calçadões





Incentivar o Zoneamento baseado em performance e formas das edificações e não em tipos de uso





Incentivar as fachadas ativas e comércio no térreo




Incentivar o Retrofit de edificações antigas




Como vocês viram é possível melhorar as nossas cidades. A receita é conhecida e não é necessário altos investimentos. Tudo o que precisamos é sensibilizar os gestores públicos para alterar nossas legislações e parar de impedir a construção de cidades para pessoas.


Se você é a favor de cidades bonitas e para pessoas, faça a sua parte e mande esse texto para os políticos e gestores públicos da sua cidade.


Afinal de contas, como dizia Einstein: “Loucura é querer resultados diferentes e continuar fazendo tudo igual.”


Chegou a hora de mudar. De mudar nossas cidades para melhor. E você pode ser um agente dessa mudança.

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