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  • Felipe Cavalcante

Como a densidade passou de vilã à mocinha das cidades e do meio-ambiente

Atualizado: Jun 15

“A pseudociência do urbanismo beira a neurose em sua determinação de reproduzir o fracasso empírico e ignorar o sucesso empírico. ” - Jane Jacobs


“Afirmar que as cidades precisam de altas densidades habitacionais e alta ocupação do solo, como tenho dito, é normalmente considerado mais grave do que defender quem come criançinhas.” - Jane Jacobs


Poucas coisas ligadas ao urbanismo alcançam as massas. Uma delas é a noção de que densidade e verticalização são em si danosas e devem ser evitadas. Claro que em várias situações isso pode ser verdade, mas isso está mais ligado ao tipo de adensamento e verticalização do que a uma regra geral, como veremos adiante.


Esse preconceito contra a densidade teve início com a péssima qualidade de vida das cidades durante toda a história, em especial durante a revolução industrial nos séculos VIII e XIX, quando as cidades eram depósitos de gente, sem condições sanitárias adequadas.


Como reação a isso, surgiram no final do século XIX e início do Século XX várias escolas urbanísticas a essa situação, como as Cidades-jardim de Ebenezer Howard. O objetivo era criar novas urbanizações que removessem os pontos negativos das cidades e que consideravam as cidades em si um mal. Outras correntes do urbanismo, como o Modernismo de Le Corbusier, também foram colocando seus temperos nesse molho, com a separação de usos e alocação de grandes espaço entre os prédios.


A cereja desse bolo foi realmente a chegada dos automóveis e a melhoria da infraestrutura rodoviária durante o século XX, fazendo com que as pessoas fossem morar cada vez mais distantes dos centros urbanos.


Mas o ponto que quero destacar é que os preconceitos contra a densidade que ainda permeiam a comunidade acadêmica e a população tem muito a ver com a realidade de mais de cem anos atrás, que não existe mais, e com o péssimo adensamento de muitas cidades que conhecemos, fruto da incapacidade de gestão urbana do poder público.


Por isso que até hoje a densidade, que é a quantidade de pessoas em uma área, é sinônimo de multidões, poluição, barulho, congestionamento, feiura, repetição, ausência de verde e falta de privacidade.


Mas por outro lado a densidade é responsável pela criação dos melhores ambientes urbanos do planeta, aqueles que todos queremos conhecer e visitar, como Paris, Londres, Barcelona, Buenos Aires e Nova York, além de inúmeros outros lugares menores e que são o sonho de consumo de qualquer turista.


Então talvez o problema não esteja na densidade, mas no tipo de densidade. Um dos fatores que contribuem para isso é o design ruim, pois cidades com bons projetos e bom urbanismo são adoradas por todos, mesmo sendo adensadas, ou exatamente por conta disso.


Além disso, quero destacar que existe a densidade quantitativa, que pode ser medida, e a densidade qualitativa, que é a forma como ela é percebida pelas pessoas. Existem lugares que são extremamente densos, mas não são percebidos como tal pelas pessoas, enquanto existem outros lugares que são pouco densos, mas que são percebidos como muito densos. Um grande diferencial nessa percepção é a qualidade do design arquitetônico e urbanístico da região.


Um exemplo de lugar denso, mas que não é percebido assim, é Paris com uma densidade de 20 mil habitantes por quilômetro quadrado. Já o bairro de Moema, mais verticalizado, é um exemplo de um local que é visto como mais denso do que é, com seus 7 mil habitantes por quilômetro quadrado.


A primeira vítima dessas constatações é a idéia de que lugares adensados são lugares verticalizados. Muito pelo contrário. Ainda me lembro de que quando era Presidente da ADEMI/AL, e estava acompanhando o Plano Diretor de 2005, e fizemos um estudo para identificar os bairros mais adensados da cidade e, enquanto todos achavam que seria o bairro da Ponta Verde, o mais verticalizado da cidade, os vencedores foram os bairros mais pobres e horizontalizados. Esse mesmo padrão se repete em praticamente todas as capitais brasileiras, incluindo São Paulo.


Um dos fatores que explicam isso é o tamanho das unidades, pois regiões que possuam imóveis maiores nem sempre possuem uma grande quantidade de moradores, já que muitas vezes existem cômodos ociosos e com a passagem do tempo os filhos vão saindo de casa e deixando os apartamentos ocupados apenas pelos pais.


Enquanto isso, nas periferias existem dois problemas, o da alta densidade de pessoas em uma região e o da superlotação de pessoas por moradia, que tornam esse tipo o pior tipo de ocupação de uma cidade.


A superlotação e a densidade são muitas vezes vistas como a mesma coisa, mas são completamente diferentes e um dos aspectos que as diferenciam é que enquanto as pessoas que moram em locais superlotados não o fazem porque querem, as pessoas que moram em locais adensados o fazem por opção e porque gostam daquele ambiente.


Além disso, após a implantação da Fórmula de Adiron em 1972 em São Paulo, a verticalização brasileira foi gradativamente se transformando no pior tipo de verticalização do mundo, pois ela estabeleceu uma proporção inversa entre o Coeficiente de aproveitamento e a taxa de ocupação do lote, criando assim os paliteiros que vemos nas cidades brasileiras, com grandes recuos frontais e laterais, que têm o efeito colateral nefasto de acabar com a vida nas calçadas.


A Fórmula de Adiron reduziu drasticamente a possibilidade de adensamento das cidades, ao tempo em que estimulava um tipo de verticalização danosa à escala humana. Além do adensamento, a outra vítima desse tipo de ocupação é a diversidade, pois a baixa ocupação do solo gera uma série de edifícios semelhantes, aniquilando uma das fontes primárias de vitalidade urbana que é a diversidade de edificações, o que gera uma padronização estética e socioeconômica que deixa a cidade estéril.


Além do tipo de adensamento e do seu design, também devemos prestar atenção ao fato de que, ao contrário do que se imagina, o adensamento é benéfico ao meio-ambiente. Quanto mais adensada for uma cidade, menor será o consumo de áreas verdes e de lavouras. A decisão que devemos tomar é simples: é melhor crescer para cima ou para os lados?


Para mim é clara a resposta de que é melhor crescer para cima, pois além do estoque de terra permanecer o mesmo e a demanda por novas moradias só aumentar, quando crescemos para o lado precisamos fazer maciços investimentos em infraestrutura e, mesmo que o façamos, as pessoas que vão morar longe do centro são as mais afetadas, vivendo longe dos locais de trabalho e das melhores opções de lazer que a cidade proporciona, além de gastar uma expressiva parte de seu tempo em deslocamentos.


Muito são, portanto, os pontos positivos da densidade, como a redução do tempo de deslocamento e das despesas com transporte e a economia em ruas, esgoto, água e energia. Além disso, as pessoas dirigem menos e as viagens são menores, pois existem outras opções ao carro, como andar, bicicleta, táxi, uber, ônibus e metrô, já que as opções de transporte público só se viabilizam a partir de um determinado índice de adensamento.


É também o adensamento que é responsável pela enorme variedade de comércio e serviços que vemos nas cidades. Só ele viabiliza a existência e a própria especialização dos pequenos negócios que as cidades geram.


Em um mundo onde as pessoas são atraídas pelas outras pessoas, pelos empregos, oportunidades, cultura e pelo lazer das cidades, precisamos deixar de lado uma visão míope e estigmatizada que as demoniza. Não faz sentido restringir o adensamento em áreas centrais e dotadas de toda a infraestrutura urbana, como fazem hoje quase que a totalidade dos Planos Diretores.


A minha percepção é que a aversão ao setor privado por parte da academia e do poder público, sem contar a turma da esquerda, é tão grande que ao perceber que o adensamento pode ser benéfico não só para as cidades, mas também para os incorporadores, eles preferem prejudicar toda a cidade a permitir algo que irá gerar lucro para as empresas.


Com base nesse profundo preconceito ideológico, eles fecham os olhos para o que acontece na cidade informal, invisível, que é ocupada não só por posseiros e ocupações irregulares, como pelo crime organizado, que hoje domina a produção habitacional de grandes áreas da periferia de São Paulo, por exemplo.


Não compreendo como pode ser tão difícil para os “especialistas” entenderem que as pessoas precisam morarem em algum lugar e se não deixarem elas morar nos locais que possuem infraestrutura instalada, próximos ao trabalho e com acesso a bons serviços, elas irão morar em qualquer lugar, prejudicando não só o meio ambiente, mas especialmente a qualidade de vida dessas pessoas.


Impedir o adensamento das cidades é sentenciar os menos privilegiados a ter uma vida muito mais dura e com menos oportunidades do que eles teriam se vivessem mais próximos das áreas centrais.


Um dos principais problemas da falta de adensamento é exatamente a impossibilidade de haver transportes de massa em locais sem adensamento. É por isso que não se encontra táxis, ônibus e muito menos metrô em cidades como Orlando no EUA. É por isso que não se consegue levar o metrô às periferias das cidades. O transporte público só se viabiliza a partir de um determinado nível de adensamento.


É com o adensamento que se consegue unir trabalho, escola, moradia e serviços em uma mesma região. Mas o adensamento por si só pode ser muito danoso, como vimos acima, se for mal feito. O adensamento correto precisa vir acompanhado de outros componentes importantes, como uso misto, fachada ativa, comércio, serviços e transporte público de qualidade.


Além disso, é fundamental o entendimento de que o importante não é simplesmente construir mais prédios, mas sim melhorar a interação entre os prédios e as calçadas, as ruas e os demais espaços públicos. E foi nisso que perdemos muito com o afastamento das edificações das calçadas imposto pela legislação urbanística dos últimos cinquenta anos. Todas as cidades e espaços públicos que gostamos não possuem recuo entre as edificações e as calçadas e entre as próprias edificações. Isso nos diz muito.


Vários grupos que estão se tornando cada vez mais importantes na pirâmide demográfica brasileira, como as populações mais velhas, os empty nesters, jovens solteiros e familias reduzindo de tamanho, preferem as centralidades urbanas em detrimento do espraiamento, que é geralmente mais adotado pelas famílias.


É preciso avaliarmos o rumo do desenvolvimento urbano brasileiro e nos perguntar se as cidades que as legislações atuais criaram são as cidades em que queremos viver. A impressão é que pouquíssimas pessoas vão responder positivamente a essa questão, independentemente de sua cor ideológica.


Apesar da imensa má vontade contra a densidade, ela é o caminho mais certeiro que temos para criarmos ambientes que tenham mais qualidade de vida e respeito ao meio ambiente.


Infelizmente, o fato é que hoje em dia não podemos construir no Brasil as cidades que gostamos. Os prédios venerados em São Paulo, como Copan e Conjunto Nacional, jamais poderiam ser construídos hoje. Não há nenhuma possibilidade de construirmos uma Barcelona ou Paris aqui no Brasil. Isso está certo? Será que correta não está toda a humanidade anterior a 1950 quando as cidades passaram a ser projetadas para os automóveis e não mais para as pessoas?


Umas das conclusões a que cheguei é que realmente o tema da densidade (que no Brasil é quase que obrigatoriamente associada à verticalização) é encarado de maneira muito emocional e ideológica, infelizmente.


O planejamento urbano atual não só negligencia, mas combate a concentração de pessoas nas cidades e nas ruas. Os urbanistas que escreveram nossos Planos Diretores e Códigos de edificações ignoraram a vitalidade urbana como um dos objetivos principais do planejamento urbano e as nossas cidades sentiram o golpe e estão definhando aos poucos e tendem a morrer. E só então eles vão perceber que a falta de densidade é o túmulo da vida urbana.

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