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  • Felipe Cavalcante

Tudo o que você precisa saber sobre praças e parques de sucesso

A inauguração do Parque Augusta em São Paulo em novembro de 2021 deu muito o que falar. O parque é uma graça, muito frequentado e repleto de vida. Não consigo me lembrar de um parque que em tão pouco espaço de tempo foi adotado de maneira tão intensa pela comunidade. Por isso, o Parque Augusta merece nossas mais calorosas saudações.


Porém, junto com a sua inauguração, e acompanhando o seu tremendo sucesso, veio a polêmica sobre se realmente seria prioridade para a cidade de São Paulo gastar mais de R$ 200 milhões em um parque em uma região já tão bem-dotada de infraestrutura e serviços e localizada a apenas um quarteirão de outra praça.


Será que esse imenso valor não deveria ter sido investido em parques e áreas de lazer na periferia, tão mais carente do que a região da Augusta?


O problema é que a periferia não tem o mesmo poder de pressão e lobby que as elites paulistanas, representada por suas atuantes associações de moradores e movimentos comunitários que têm acesso direto a jornalistas, ao Ministério Público e à Justiça, além de condições financeiras de contratar advogados e até elaborar campanhas profissionais de comunicação. O fato é que a elite grita mais e mais alto e com isso ganha mais, retirando da população carente recursos que fariam toda a diferença para quem realmente mais precisa.


Mas não vou me estender sobre esse ângulo da discussão, até porque já foram muito bem cobertos, e de maneira muito mais competente do que eu faria, pelo Caos planejado, principal site de conteúdo urbanístico do Brasil, e pelo Raul Juste Lores, principal jornalista de urbanismo brasileiro.


Meu foco nesse texto é tentar decifrar os motivos que levam um parque ou praça a ser bem frequentados e vibrantes enquanto outros são verdadeiros desertos, largados e até perigosos. Esse assunto chamou a minha atenção devido ao grande sucesso do Parque Augusta quando comparado com centenas e milhares de outros parques e praças que não conseguem obter o mesmo sucesso.


Para isso, nada melhor do que beber na fonte, o que nesse caso significa resgatar o que a grande Jane Jacobs nos ensinou sobre parques e praças no seu magnifico livro “Morte e vida de grandes cidades”, o mais importante livro já escrito sobre urbanismo.


Portanto, nada do que vou escrever aqui é original, mas basicamente um resumo dos mais importantes pontos elencados por ela. Como muita gente tem preguiça, não tem tempo ou não gosta de ler compêndios sobre urbanismo, achei por bem aplicar nesse caso o meu lema de vida: Reunir, simplificar e difundir conhecimento.


Na maioria dos casos, irei apenas copiar e colar alguns trechos do livro de Jane Jacobs que eu considerei mais relevantes, pois nesses casos eu não vi como explicar melhor do que ela ou eu não tinha nada a acrescentar sobre o assunto. Nesses casos, os textos estarão entre aspas. Já em outros momentos, eu colocarei o conteúdo com minhas próprias palavras, quando entenda que posso ajudar a contextualizar melhor a situação para nossa realidade ou quando acredite que possa agregar algo em função da minha experiência de vida.


Mãos à obra, então:


· Existe uma percepção generalizada de que os parques são bons e valorizam as suas vizinhanças. Infelizmente, isso é mais exceção do que regra. Pouco parques e bairros realmente atingem esse propósito e muito deles acabam sendo um pênalti para suas comunidades, constituindo-se de locais inseguros, sem vida, habitados por mendigos, pontos de compra e venda de drogas, propícios a assaltos, sujos, escuros e com jardins descuidados, desvalorizando a vizinhança e espantando os usuários.


· É comum que parques urbanos com essas características sejam cercados por grades aqui no Brasil. Nada é mais sintomático do fracasso na gestão urbana do que o fechamento de parques e praças.


· E isso nos lembra que a gestão (ou sua falta) por parte do Poder Público é um problema adicional que temos no Brasil. As prefeituras não possuem recursos, capacidade e interesse em fazer uma boa manutenção e gestão de praças e parques. E mesmo aquelas poucos que tenham essas condições, são atrapalhadas pelo exercício de gerir qualquer coisa com as limitações e amarras da nossa Lei de licitações, que tornam impossível a qualquer gestor público ser tão eficiente quanto sua contraparte privada.


· Um movimento que tem se intensificado no Brasil é a concessão de parques à iniciativa privada. Esse é um caminho sem volta e deveria ser incentivado cada vez mais pela sociedade. Todos saem ganhando: as prefeituras deixam de gastar, prestam serviços de melhor qualidade à população e ainda tem uma receita adicional advinda do setor privado. Já a população recebe um serviço de melhor qualidade, com maior oferta de serviços, parques mais bem cuidados e mantidos, jardins e paisagismo bem tratados e, muito importante, a definição de alguém claramente responsável pela manutenção daquele parque e com quem se pode entrar em contato para exigir alguma melhoria ou solicitar manutenção. Alguns exemplos de parques geridos pela iniciativa privada são o Parque Burle Marx, Parque Ibirapuera e Parque das Cataratas.


· Um dos pontos críticos para o sucesso de parques urbanos é a densidade ao seu redor. O Parque Augusta é um exemplo vivo disso, cercado de edifícios, muitos deles com apartamentos pequenos, gerando uma alta densidade de pessoas. Um exemplo negativo é o Parque do Ibirapuera também em São Paulo, cercado de casas grandes e com baixa densidade. É o adensamento que gera uma cidade vibrante e a escala de pessoas necessária para ocupar os espaços públicos.


· A facilidade de acesso através de transporte público é outro fator importante em um parque, especialmente nos finais de semana, quando ele pode virar um destino de lazer da cidade.


· As bordas dos parques são críticas para o seu sucesso. Elas devem conversar com a cidade ao seu redor e ao mesmo tempo ser convidativas.


· A relação entre as edificações ao redor dos parques e a rua também tem papel crucial para os parques. Se os edifícios forem fechados em si mesmo, menor será o impacto positivo deles nos parques. Ao contrário, se o diálogo entre o espaço privado e o espaço público existir, com fachadas ativas, lojas, calçadas largas, bares e restaurantes ocupando o térreo, haverá um enorme impacto positivo na vivacidade dos parques.


· Infelizmente, temos no Brasil um problema adicional para lidar, que é a depredação realizada pela população. É impressionante não só falta de educação, mas a verve destruidora das pessoas, especialmente dos jovens, com os bens e equipamentos públicos. É praticamente impossível não haver algum tipo de depredação do mobiliário urbano no Brasil.


· “Os parques de bairro ou espaços similares são comumente considerados uma dádiva conferida à população carente das cidades. Vamos virar esse raciocínio do avesso e imaginar os parques urbanos como locais carentes que precisem da dádiva da vida e da aprovação conferida a eles. Isso está mais de acordo com a realidade, pois as pessoas dão utilidade aos parques e fazem deles um sucesso, ou então não os usam e os condenam ao fracasso. ”

· Os urbanistas têm a mania de acreditar que as pessoas vão utilizar os parques e praças apenas por eles estarem lá. A grande maioria deles não conhece as técnicas e pré-condições necessárias para que um parque seja bem-sucedido.


· “Em certos aspectos de seu desempenho, todo parque urbano é um caso particular e desafia as generalizações. Além do mais, os parques grandes diferem muito, de trecho para trecho, dentro de si próprios, e também recebem influências diversas das diferentes partes da cidade no seu entorno. ”


· “A primeira precondição para compreender como as cidades e seus parques influenciam-se mutuamente é acabar com a confusão entre os usos reais e os fantasiosos–por exemplo, a baboseira de ficção científica de que os parques são "os pulmões da cidade". São necessários cerca de doze mil metros quadrados de árvores para absorver a quantidade de dióxido de carbono que quatro pessoas geram ao respirar, cozinhar e aquecer a casa. São as correntes de ar que circulam à nossa volta, e não os parques, que evitam que as cidades sufoquem. ”


· “Além disso, certa metragem de áreas verdes não fornece mais ar a uma cidade do que uma metragem equivalente em ruas. Subtrair as ruas e adicionar sua metragem quadrada a parques ou esplanadas em conjuntos habitacionais não tem o mínimo efeito sobre a quantidade de ar fresco que uma cidade recebe.”


· “Para compreender o desempenho dos parques é também necessário descartar a falsa convicção de que eles são capazes de estabilizar o valor de bens imóveis ou funcionar como âncoras da comunidade. Os parques, por si sós, não são nada e menos ainda elementos efémeros de estabilização de bens ou de sua vizinhança ou distrito.”


· “Um dos fracassos mais amargos da história dos conjuntos habitacionais é que parques e áreas livres nesses locais não foram capazes de valorizar a vizinhança ou ao menos estabilizá-la, quem diria melhorá-la. Observe o entorno de qualquer parque urbano, praça pública ou área verde de conjunto habitacional: é muito raro encontrar uma área livre com um entorno que espelhe convenientemente o propalado magnetismo ou a influência estabilizadora que os parques possuiriam.”


· “Os parques impopulares preocupam não só pelo desperdício e pelas oportunidades perdidas que implicam, mas também pelos efeitos negativos constantes. Eles sofrem do mesmo problema das ruas sem olhos, e seus riscos espalham-se pela vizinhança, de modo que as ruas que os margeiam ganham fama de perigosas e são evitadas.”


· Um dos principais fatores de sucesso de um parque é a variedade de usos dos edifícios ao seu redor. As pessoas que os utilizam, diferentes entre si e seus hábitos, frequentam o parque em diferentes horários. Se só temos prédios residenciais ao redor de um parque, ele só terá movimentação nos mesmo horários, pois todas as pessoas tendem a ter um comportamento similar. Se tivermos, além dos edifícios residênciais, outros usos como edifícios de escritórios, teatro, bares e restaurantes, haverá movimento durante vários horários do dia e da noite e o parque se ornará mais vibrante e seguro. O uso misto ao redor de parques e praças deveria ser incentivado pelas legislações urbanas da mesma maneira que são incentivados ao longo dos corredores de transporte.


· Os parques urbanos são “fruto de sua vizinhança e da maneira como a vizinhança gera uma sustentação mútua por meio de usos diferentes ou deixa de gerar essa sustentação. ”


· “Um parque de bairro genérico, que esteja preso a qualquer tipo de inércia funcional de seu entorno, fica inexoravelmente vazio por boa parte do dia. E aí se estabelece um círculo vicioso. Mesmo que o vazio não seja atingido por várias espécies de praga, ele exerce pouca atração devido ao número restrito de frequentadores potenciais.”


· “Há, no entanto, uma exceção importante à regra de que é necessária uma mistura funcional ampla de frequentadores para povoar e dar vida a um parque de bairro o dia inteiro. Existe nas cidades um grupo que, sozinho, é capaz de usufruir e povoar os parques prolongada e satisfatoriamente, embora raramente atraia outros tipos de frequentadores. Esse grupo é formado pelas pessoas que têm tempo para o lazer, e não têm responsabilidades domésticas. ”


· “A variação arquitetônica superficial pode parecer diversidade, mas só uma conjuntura genuína de diversidade econômica e social, que resulta em pessoas com horários diferentes, faz sentido para um parque e tem o poder de conceder-lhe a dádiva da vida. ”


· “Já podemos concluir que nos bairros que dispõem de uma quantidade relativamente grande de parques genéricos(...) é raro a população concentrar-se com intensidade num deles ou ter adoração por algum, (...) Os parques de bairro apreciados levam vantagem por serem raros. ”


· “Parques muito usados como áreas públicas genéricas costumam incluir quatro elementos em seu projeto, que eu identificaria como complexidade, centralidade, insolação e delimitação espacial.”


· “A complexidade diz respeito à multiplicidade de motivos que as pessoas têm para frequentar os parques de bairro. Uma pessoa vai a um parque por motivos diferentes e em horários diferentes: às vezes para descansar, às vezes para jogar ou assistir a um jogo, às vezes para ler ou trabalhar, às vezes para se mostrar, às vezes para se apaixonar, às vezes para atender a um compromisso, às vezes para apreciar a agitação da cidade num lugar sossegado, às vezes na esperança de encontrar conhecidos, às vezes para ter um pouquinho de contato com a natureza, às vezes para manter uma criança ocupada, às vezes só para ver o que ele tem de bom e quase sempre para se entreter com a presença de outras pessoas.”


· “Se o espaço puder ser apreendido num relance, como um bom cartaz, e se cada um de seus segmentos for igual aos outros e transmitir a mesma sensação em todos os lugares, o parque será pouco estimulante para usos e estados de espírito diversificados. Nem haverá motivo para frequentá-lo várias vezes.”


· “A complexidade que está em jogo é a complexidade visual, mudanças de nível no piso, agrupamentos de árvores, espaços que abrem perspectivas variadas–resumindo, diferenças sutis. As diferenças sutis da paisagem são acentuadas pelas diferenças de usos que nela proliferam. Os parques bem-sucedidos sempre parecem mais complexos quando estão em uso do que quando estão vazios.”


· “Mesmo as praças muito pequenas que são bem-sucedidas compõem-se de uma variação engenhosa nos cenários que proporcionam aos usuários. O Rockefeller Center apresenta tal variação por meio de quatro mudanças de nível. A Union Square, no centro de São Francisco, tem uma planta que parece extremamente sem graça no papel ou olhada do alto de um edifício, mas ela tem tantas mudanças no nível do piso, como a pintura dos relógios derretendo de Dali, que se torna bastante variada.”


· “Talvez o elemento mais importante da complexidade seja a centralidade. Os parques pequenos e bons geralmente têm um lugar reconhecido por todos como sendo o centro–no mínimo, um cruzamento principal e ponto de parada, num local de destaque. Certos parques e certas praças pequenas são quase que unicamente um centro, e sua complexidade deve-se a diferenças menores na periferia.”


· “As pessoas são inventivas ao utilizar o centro dos parques.”


· “Embora os edifícios não devessem tirar o sol dos parques–desde que a meta seja encorajar o uso irrestrito–, a existência de construções à volta deles é importante nos projetos. Elas os envolvem. Criam uma forma definida de espaço, de modo que ele se destaca como um elemento importante no cenário urbano, um aspecto positivo, e não um excedente supérfluo.”


· “Os frequentadores de parques urbanos não procuram um cenário feito para os edifícios; eles procuram um cenário feito para eles mesmos. Para eles, os parques são o primeiro plano, e os edifícios, o pano de fundo, e não o contrário.”


· Sobre pequenos parques e praças: “Alguns, se forem bem pequenos, podem muito bem prestar outro serviço: ser visualmente agradáveis.”


· “Todavia, os parques que existem em princípio apenas para agradar aos olhos, sem outras finalidades, têm de estar necessariamente onde os olhos os vejam; e devem ser necessariamente pequenos, porque para cumprir bem sua função, devem fazê-lo com beleza e intensidade, não superficialmente.”


· “Os parques mais problemáticos localizam-se exatamente nos locais onde as pessoas não passam e provavelmente nunca vão passar. Um parque urbano nessa situação, agravada (porque nesses casos é uma desvantagem) por um terreno de bom tamanho, encontra-se, comparativamente, na mesma situação que uma loja enorme num local comercialmente ruim. Se uma loja dessas puder ser recuperada e fizer jus a isso, será por força da concentração total no que os comerciantes chamam de "artigos de primeira necessidade", e não na confiança nas "compras por impulso". Se esses produtos indispensáveis conseguirem atrair fregueses, é possível que, em seguida, se obtenha um bom lucro com as compras por impulso.”


· “Ele (o parque) se situa na ponta extrema do bairro, limitado de um lado pelo rio. Fica ainda mais isolado por uma rua larga de tráfego pesado. Seu traçado interno tende para caminhos longos e isolados, sem um centro efetivo. Uma pessoa de fora vai achá-lo misteriosamente deserto; para quem é do bairro, é um foco de brigas, violência e medo.”


· “Em síntese, se um parque de bairro genérico não pode ser sustentado pelos usos derivados de uma diversidade natural e intensa da vizinhança, precisa ser convertido de parque genérico em parque específico. Uma diversidade de usos verdadeira, que atraia naturalmente uma sucessão de frequentadores diferentes, deve ser introduzida deliberadamente dentro do próprio parque.”


· “Só a vivência e a tentativa e o erro podem indicar que combinações variadas de atividades realmente operam como artigos de primeira necessidade em qualquer parque problemático. Porém, podemos arriscar algumas hipóteses genéricas e úteis sobre esses elementos. Primeiro, uma generalização negativa: vista magnífica e paisagismo bonito não funcionam como artigos de primeira necessidade; talvez "devessem", mas evidentemente não funcionam. Podem funcionar apenas como complemento. ”


· “Por outro lado, a natação funciona como um artigo de primeira necessidade. E também a pescaria, se houver conjuntamente iscas à venda e barcos. Quadras de esportes também. E ainda festas, ou atividades que tenham esse caráter”.


· “Música (inclusive a gravada) e peças de teatro também servem como artigo de primeira necessidade. É curioso que se faça muito pouco uso dos parques para esse fim, já que a inserção espontânea da vida cultural faz parte da missão histórica das cidades.”


· “Faltam aos parques urbanos atividades menores, que poderiam funcionar como "artigos de primeira necessidade" menos importantes. Algumas delas podem ser descobertas observando o que as pessoas tentam fazer escondido.”


· “Locais para lavar bicicletas (onde as pessoas tenham bicicletas), locais para alugá-las e passear com elas, locais para fazer buracos no chão, locais para montar tendas de índio e cabanas desengonçadas com tábuas velhas são geralmente enxotados das cidades.”


· “Empinar pipas é uma atividade pouco realizada, mas há os que a adoram, o que sugere a existência de locais para empinar pipas onde também se venda o material para construí-las e haja espaços onde se possa aprender essa arte.”


· “Todo bairro provavelmente adoraria ter e usar um rinque de patinação ao ar livre e também iria formar uma plateia de espectadores extasiados.”


· “Rinques relativamente pequenos, distribuídos por vários lugares, são sem dúvida muito mais adequados e agradáveis que rinques enormes, estabelecidos num local central.”


· “Mas as cidades norte-americanas atuais, movidas pela ilusão de que as áreas livres são um bem em si e de que quantidade equivale a qualidade, estão torrando dinheiro em parques, playgrounds e vazios urbanos muito extensos, muito abundantes, supérfluos, mal localizados e portanto muito monótonos e incômodos de usar.”

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