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  • Felipe Cavalcante

A importância dos jogos mentais: do tênis para a vida

A nossa mente pode ser nossa aliada ou inimiga na vida e nos esportes. Em poucos esportes a mente é tão importante quanto o tênis. É recorrente a afirmação de que o jogo mental é tão ou mais importante para a vitória do que as habilidades esportivas, especialmente em esportes individuais como o tênis.


Há alguns anos eu tive a oportunidade de conferir essa informação. Eu tinha jogado tênis brevemente quando era criança e nunca mais tinha me interessado. Foi quando resolvi começar a treinar. Treinei durante um ano e meio e me apaixonei. Infelizmente, por uma série de razões não consegui continuar a praticá-lo. Espero reverter isso o quanto antes.


Eu amei o tênis. Vi que tinha nascido para jogá-lo. Eu entendi bem a mecânica do jogo, mas gostei mesmo foi da visão de jogo e do jogo mental. Eu tinha muita facilidade de visualizar onde a bola deveria ser jogada, já antevendo para onde isso levaria a seguir. Me lembrava muito o xadrez, por incrível que pareça.


Mas o principal mesmo foi o jogo mental. É muito difícil descrever do que se trata, mas todos que já jogaram tênis conhecem bem. Para mim, de uma maneira bem leiga, o jogo mental é aquela conversa que nós temos com nós mesmos dentro da nossa cabeça. Sabe aquele desenho animado com um anjinho e um diabinho tentando nos convencer dentro da nossa mente? É assim que eu vejo o jogo mental.


O que mais me impressionou durante o meu curto período com “tenista” foi o fato de eu ter ganhado várias disputas com jogadores melhores do que eu, inclusive alguns da terceira classe. Isso mesmo sem eu nunca ter participado de nenhum torneio e nem sendo da quinta classe, a inicial. O meu condicionamento físico e o meu peso também não ajudavam. Estava há trinta anos sem fazer exercício para valer e sempre com mais de 115 quilos.


A cada jogo foi ficando cada vez mais claro que eu não estava ganhando ou disputando de igual para igual devido à qualidade do meu tênis, mas à maneira como o meu emocional lidava com o jogo, especialmente com os momentos ruins.


Eu me recordava de meus tempos de jogador de voleibol e de como era comum um atleta ou equipe “amarelar” em momentos críticos da partida, sentindo o peso da responsabilidade, ficando nervoso com um ponto crucial, pensando demais na situação, tentando acertar o movimento, querendo demais acertar uma jogada, pensando em uma jogada errada que tinha feito e perdendo a confiança em função dela.


No tênis isso também acontece com frequência. São comuns os casos de atletas que estão ganhando por larga vantagem e de repente perdem tração e o jogo.


Porque isso acontece? Porque algumas pessoas conseguem lidar melhor do que outras com as pressões do esporte e da vida? O que podemos fazer para superar esses momentos e fazer com que o “anjinho” da nossa mente vença o “diabinho”?


Eu tenho meus palpites e achei vários outros interessantes no livro “Mastering the mental game in tennis” do Jamie Andrews.


A primeira coisa que me vem à mente é a Terapia Cognitivo-Comportamental e a idéia que ela defende de que os nossos pensamentos determinam o nosso comportamento. Ou seja, a maneira como processamos nossos pensamentos vai determinar se conseguiremos superar os desafios da vida.


Tese semelhante encontramos nos filósofos estóicos que advogam que não importa o que acontece conosco, mas como reagimos a esses estímulos.


Dentro dessa linha, um dos principais problemas dentro e fora da quadra de tênis é o fato de ficarmos remoendo algo que aconteceu conosco, deixando isso nos marcar impedindo a nossa evolução.


No tênis isso acontece quando erramos uma jogada e em vez de nos concentrar na próxima jogada, enterrando o passado, ficamos com ela na cabeça, lamentando nosso erro ou falta de sorte e deixando-a impactar nosso jogo dali para frente.


O primeiro passo para superar isso é dizer para si mesmo que o próximo ponto é mais importante do que o anterior e focar sua atenção nele. Precisamos ter consciência de que qualquer jogo, assim como a vida, tem altos e baixos e sempre teremos oportunidades de nos recuperar mais à frente.


Algumas pessoas ficam presas ao seu fracasso ou jogada errada, deixando-as cegas às inúmeras oportunidades que existem de virar o jogo. É fundamental acreditar que nunca é tarde demais para virar o jogo. A questão aqui é conseguir ter mais bons momentos do que ruins, e evitar que os momentos negativos sejam catastróficos.

Ter consciência de que ninguém consegue ser perfeito e que sempre existirão falhas tiram muito do peso. Quando temos essa expectativa é muito mais difícil ficar decepcionado quando se erra ou quando algo não acontece da maneira que queríamos. Quando algo assim acontecer, devemos apenas continuar em frente.


Outra armadilha mental é a preocupação das pessoas em não jogar bem ou não desapontar as outras pessoas, que pode ser resumido ao receio de perder a partida. Em resumo, o medo de perder o jogo prejudica muito o desempenho de qualquer pessoa. A questão aqui é que não conseguimos controlar o resultado do jogo, por isso ficar pensando se vai ganhar ou não só vai aumentar as suas chances de perder. A ironia é que você não vai ganhar se tentar ganhar.


O antídoto a isso é dar menos importância a ganhar ou perder passando a focar mais nos processos e na preparação. Quando se tem o sentimento de que fizemos o que estava ao nosso alcance, ficamos mais aliviados e em paz conosco.


Eu, particularmente, uso cada vez menos metas como forma de incentivo. Ao invés de ter uma meta de perder 20 quilos, eu hoje prefiro ter como meta malhar todo dia. Isso cria o hábito necessário para me colocar no caminho de perder os 20 quilos, até porque quando colocamos uma meta, muitas vezes nos desestimulamos quando a alcançamos. Já quando incorporamos um hábito, é muito mais difícil deixa-lo de lado.


Trazendo isso para o tênis, as pessoas devem se preocupar menos com ganhar uma partida ou campeonato e mais em desenvolver hábitos que irão permitir que ela alcance essas metas. Antes do jogo podemos controlar nossa alimentação, o tempo dedicado aos treinos e a pesquisa sobre o estilo de jogo do oponente, entre outros pontos. Já durante o jogo, podemos controlar nossas estratégias, nossa mentalidade, o esforço que fazemos, as jogadas que fazemos e nossas decisões. Então é nisso que devemos focar nossas energias.


Algo que eu intuitivamente comecei a perceber quando jogava voleibol é que sempre que a gente tenta se concentrar em fazer uma jogada bem-feita, com os movimentos adequados e na força exata, as chances de errarmos aumenta muito. Com o passar do tempo eu fui entendendo que ao fazermos isso estamos passando o controle para o nosso lado racional e consciente da mente, retirando a batuta do inconsciente, que é quem deve conduzir nossos movimentos quando estamos jogando.


Não devemos micro gerenciar o que fazemos na quadra, mas sim deixar o nosso corpo fazer o que ele foi treinado para fazer. O segredo é treinarmos bastante até o nosso corpo saber intuitivamente o que deve ser feito a cada lance e jogar no piloto automático. Nosso inconsciente sabe medir a velocidade e o giro da bola, o local da raquete em que ele deve bater, a rotação do braço e da mão, a velocidade do vento e todos os outros infindáveis fatores necessários para realizar a jogada que queremos. Nossa mente é o mais potente computador já criado. Vamos deixar ela trabalhar.


Um truque cada vez mais usado no mundo dos esportes é tentar não valorizar o placar, mas sim focar em cada ponto e em cada jogo. Ficar pensando no placar prejudica muito o foco do atleta. No tênis temos as duas situações. Quando a pessoa está perdendo por uma grande vantagem, ela pode se desestimular e praticamente entregar o jogo. Mas o oposto também acontece, quando a pessoa relaxa e permite a recuperação do oponente.


O correto nessas situações é focar em cada ponto jogado. Isso é tudo o que importa naquele momento. Não devemos nos preocupar com pontos anteriores, com o placar nem com nossos futuros adversários. Cada ponto é um ponto e deve ser jogado com todo vigor e energia. Muita gente acredita que por ter perdido dois saques, por exemplo, as chances de também perder o terceiro aumenta, quando na verdade não existe nenhuma correlação, fora o fato da pessoa deixar se abater. Eu, particularmente, uso a abordagem oposta: eu penso que na medida que perdi dois saques a chance de eu acertar o terceiro é maior. Mesmo que não tenha base probabilística, isso me ajuda a adquirir mais confiança. E funciona.


Existem alguns outros truques muito utilizados no tênis. Um deles é olhar sempre a bola. Quando fazemos isso nós estamos praticando um tipo de meditação e atenção plena. Com isso esquecemos de pensar bobagens. Sempre que você estiver querendo se concentrar de verdade, passe a seguir a bola, mas seguir de verdade, não é só olhar para ela, mas prestar tanta atenção que você consiga ver sua rotação e os locais da raquete e da quadra onde ela bate.


Essa técnica tem ainda a vantagem adicional de fazer o seu inconsciente tomar conta do seu corpo e do seu jogo, o que, como vimos acima, é o melhor estado mental de um atleta.


Também não podemos esquecer da respiração. Eu confesso que só descobri a importância da respiração há alguns anos. Falta para cartão vermelho. Hoje eu fico me perguntando porque as técnicas de respiração não são ensinadas na escola, tal a sua importância.


Além de aprender a respirar adequadamente durante o jogo, o que eu confesso que não sei fazer, é fundamental respirar profundamente antes e depois de cada ponto. Isso dá uma equilibrada no corpo e na mente e aumenta a concentração. Sempre importante lembrar que respirações curtas e rápidas no tronco são seus maiores inimigos. É a respiração da tensão. A maneira correta de se respirar é inspirar profundamente focando na região abaixo do abdômen até encher a sua barriga. Repita esse movimento seis vezes e você vai estar mais calmo e centrado.


O controle da emoção é outra arma atômica de qualquer atleta. Mais fácil de falar do que de fazer, esse controle é crucial, especialmente em momentos críticos. Perder o controle da emoção ou ficar com raiva é dar uma vantagem inestimável ao seu oponente não só no aspecto emocional, mas também em termos de jogadas, pois ninguém nesse estado joga o seu melhor jogo. Tente canalizar sua energia para o seu jogo e não para a raiva. Veja o exemplo dos melhores jogadores do mundo. Na maioria das vezes não conseguimos saber se eles ganharam ou não um ponto tal sua estabilidade emocional.


Ao fazer uma correlação entre o tênis e o mundo real, dá para enxergar claramente que o que vale para um vale para o outro. As chaves para superar os pensamentos negativos e vencer no tênis são as mesmas que precisamos em nossas vidas: dominar nossos pensamentos para agirem em nosso benefício, priorizar processos e hábitos, deixar o inconsciente fazer a sua parte (fundamental em tomada de decisões através do instinto), fazer o seu melhor e não se preocupar tanto com o que os outros pensam a seu respeito, não alimentar os fracassos do passado e voltar as energias para o futuro, encontrar maneiras de melhorar sua concentração através da meditação e da respiração e, por fim, controlar as suas emoções.


Quem conseguir seguir mais de perto essa receita, sem sombra de dúvidas tem muito mais chances de ser vitorioso tanto no tênis quando no jogo da vida.

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